quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Review: Pilares da Terra ****



Review do 1º volume:

Este romance, o primeiro de dois, começa de forma lenta, com suavidade. Faz-nos conhecer as suas personagens de um ponto de vista externo, mas descrevendo tão bem os seus pensamentos e emoções, que somos obrigados a empatizar com eles. Quando já estamos presos, seguimos com ansiedade as aventuras (sim, porque naquele tempo, conseguir não morrer à fome era uma aventura), contratempos e desafios destas personagens: Tom, o pedreiro e seus filhos; a misteriosa Ellen e seu filho; William, o nobre de cabeça quente, e sua família; o mágico monge Philip e seus companheiros monásticos.
Outras personagens surgem, claramente, para desafiar a nossa atenção ao pormenor, assim como intrigas, conflitos e ambição desmedida.

O autor faz uma caracterização óptima e nada exaustiva do século XII de Inglaterra com o pretexto de descrever a construção de uma catedral. E, ainda que seja central a construção da mesma e a deslocação de interesses para este fim, o livro mostra-nos muito para além disso, faz-nos imaginar como seria viver naquela época. Em que classe social nos inseriríamos? Seríamos um homem ou uma mulher? Os nossos pais sobreviveriam intactos para cuidarem de nós até sermos autónomos?
Fantástico, deveras. Contente por já ter o segundo para começar a ler.

Review do 2º volume:

O segundo volume dos Pilares da Terra começa acelerado e é uma directa continuação do primeiro. Estes livros têm qualquer coisa que nos vicia, que nos faz querer virar páginas e saber como tudo termina. É uma verdadeira saga, cheia de acção e, com alguns abrandamentos em que escutamos as personagens no seu íntimo. Lemos também descrições complexas sobre a arquitectura de igrejas e catedrais, sendo que nem todas se encontram bem encaixadas na estória. O autor introduz também algum contexto histórico, uma vez que acompanhamos a trama política da época assim como descrições de como seria a vida naquela época. É-nos apresentado um mundo de jogo de intrigas, poder, ambição, de desigualdade entre classes e de violência. 

No centro desta estória estão as suas personagens, praticamente sempre as mesmas desde do início do romance e, ainda que algumas sejam bastantes ricas como a diferente Ellen e seu filho Jack, há outras que são bastante planas. Gostaria de ter visto o autor arriscar-se mais e utilizar diálogos contemporâneos das personagens e não tão modernos. 

No fim ficamos com alguma pena de termos acabado e começam as saudades das personagens que nos povoaram o imaginário nos últimos tempos. 

Gostei muito.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Um homem reles.

Era um homem reles. Daqueles que em fins de tarde nos fazem desviar com receio do seu odor a trabalho se entranhar em demasia no nosso nariz.
Tinha uma cara rude, demasiado angulosa, muito porosa. Não se vestia bem, claro está, as cores e cortes das suas roupas tendiam a não combinar umas com as outras. E as tatuagens, as tatuagens de guerra colonial, feitas a agulha e muito perfeitas para a imperfeição dos meios, mas que lhe envelheceram na pele dos braços, assim como os ideais que protegiam. A mãezinha já morreu. A colónia também. Agora existe apenas esta vida de acartar com coisas e um voltar para uma casa sem família.
O mais marcante, é claramente a cicatriz, que lhe poupara o olho, mas lhe vincara a maçã do rosto e lhe separara a orelha esquerda. Era apenas uma linha, que aclarara com o tempo, uma ténue linha, mas que lhe aguçava a rudeza do rosto, a dificuldade da vida, a verdade da condição. Esta linha ténue separava-lhe o rosto e os sonhos do que poderia ter sido a sua vida, o "sem" a guerra e a realidade do "com".
Tornara-se, porque ninguém nasce, um homem reles.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Com tempo

Com tempo, com paciência, tudo muda, acalma, transforma, evolui. Com calma, meditação, perseverança, amor.

Com tempo voltamos a acreditar em dias, seguidos de dias, cheios de dias mais.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Um dia comum naquela praia

Era um dia comum e nada tinha para fazer. Enfiei uma roupa qualquer, cerrei a porta com força e, quase sincronizado com esse bater, iniciei a procura das chaves no meu bolso vazio. Depois a busca no outro bolso. Vazio. Ausente.

Sou sempre um bocado assim, já nem me canso com esta mundana repetição de esquecimentos. O que eu precisava mesmo era de passear que a cabeça me ardia mortalmente.

Agarro na bicicleta-velha e pedalo. Esquerda. Direita. Esquerda. Direita.
             Agora com mais vigor.
            Agora por mais tempo sem descansar.
            E o tempo e o vento esvaziou-me o pensamento. As minhas passadas rolantes levaram-me à praia. Àquela praia.

            Estava bonito e airoso o tempo. O mar não tinha pressa no seu enrolar. O sol ainda se enublava no seu olhar. Peguei no meu livro de bolso, amachuquei-me na areia húmida e tentei concentrar-me. Há já uns dias que este Ensaio de Dom Juan não se acabava e havia que acabar, não era? Temos sempre coisas para fazer que não nos faz sentido fazer, mas que não deixam de obrigar.
            Passei por duas páginas, ou era a mesma que se folheava nos meus olhos? Quem disse a algum autor em algum lugar que os livros se lêem melhor em letras pequenas e em palavras confusas? Bem, confusas como estas mesmas palavras confusas.

            Do nada, dei um valente berro (e eu que nem sou daqueles de gritar!). Quem é que me mordeu o traseiro como se de comida se tratasse?

            Comecei a varrer o ar à minha frente com aquele meu olhar acusador. Serão aquelas duas miniaturas de pessoas, que brincam com miniaturas de si próprias, os portadores de tais afiadas dentuças? Tento intimidá-las com o meu olhar irado... Nada. As crianças continuam a brincar em perfeito silêncio. Senti ainda mais a urgência de encontrar o/a causador(a) do mau estar da nádega, [até porque precisava de perceber possíveis fontes de infeções carnais].


            No canto do meu campo de visão surge um movimento... é o meu chapéu de feltro que caminha de forma sorrateira? E, porque brincam crianças em pleno silêncio? Meio a medo, cheio de curiosidade, ergo o dito objecto e vejo um crocodilo bebé. Sim! Um crocodilo bebé de cor verde-bela, olhos enormes e com um olhar de pedir desculpa que comoveria até o mais magoado rabo. Um sorriso força-se na minha expressão (só me apercebo porque tenho os músculos destreinados deste movimento), eu nunca tinha posto os olhos num crocodilo. Aproximo a mão e acaricio o sedoso que são as suas escamas, a minha mão escorrega como em pelo. Ele então começa a farejar a minha perna e o calor atinge-me em pequenas lufadas de prazer. Fico arrepiado quando ele, com imensa agilidade, começa a trepar por mim acima, fazendo-me cócegas nas costas. Estou, assim, de olhos meio cerrados quando o bichinho se aproxima do meu rosto. E, ai, que choque! Uma onda de cheiro não-nada agradável entranha-se bem no meu nariz. Arregalo de imediato os olhos. Porque me morde uma ratazana-verde o queixo? Onde está o crocodilo?

terça-feira, 7 de junho de 2016

Wangari Maathai

"A educação, se significa alguma coisa, não deveria afastar as pessoas da terra, mas incutir-lhes ainda mais respeito por ela, porque as pessoas com educação estão em posição de compreender o que está a ser perdido. O futuro do planeta diz respeito a todos nós, e todos deveríamos fazer o possível para o proteger. Como dizia aos silvicultores e às mulheres, não é preciso ter um diploma para plantar uma árvore." 
by Wangari Maathai

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Review: Em teu Ventre

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É o meu primeiro livro do autor e achei-o fácil de ler e de gostar. Trata-se da descrição do milagre de Fátima pela perspectiva da mãe de Lúcia, de pequenas notas feitas pela própria Lúcia, de Deus que fala em verso e de uma outra mãe mais moderna (a mãe do autor?). É poético e filosófico e a minha parte predilecta são as intervenções de Deus. Está muito bem escrito e gostei das reflexões sobre o papel da(s) mãe(s).

Contudo não satisfaz a curiosidade de um verdadeiro romance histórico, uma vez que não se trata de uma descrição fluída de acontecimentos, enriquece-nos apenas a imaginação do que terá sido a euforia e a magia das aparições. Para além disso, o autor opta por não se comprometer com uma opinião sobre o que terá ocorrido.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Lila e o Jogo de Deus - Umi Sinha

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“Belonging” é um título perfeito para este livro (mais apropriado que a versão portuguesa “Lila e o Jogo de Deus”). É um livro que nos cativa do primeiro ao último fôlego e eu não era cativada assim há muito tempo. É belo, curioso e raro.
Ainda que seja uma obra de ficção tem uma relação profunda com a história da época e deita um olhar próximo na evolução da relação entre Inglaterra e Índia desde meados do século XIX até ao final da 1ª Guerra Mundial.
A estória é contada a 3 vozes que representam 3 geração de uma mesma família, cujos relatos são feitos de diferente forma e se intercalam sequencialmente. Estas três personagens são densas e tive empatia com as três.
Lila, a neta, relata a sua estória desde que testemunha o suicídio de seu pai, Henry. Henry, por sua vez, expressa-se até de palavras num diário desde que é jovem. Ouvimos Cecily, a mãe de Henry, através de cartas à sua irmã gémea, Mina.
É uma estória sobre história, tolerância e confiança, mas que também fala de amor, esperança e relacionamentos.  

Há vozes que rezamos para que se tenham silenciado apenas momentaneamente e, apesar de já sabermos quase o desfecho, enganemo-nos. Há tantos detalhes e presentes deixados pela escritora.